Coiseras

Série Manos - IV

Notei um pequeno crucifixo preso à grade que deveria impedir a instalação dos sem-teto no viaduto. Um dos manos me disse que era para proteger o grupo. De quê? "Tem muito cachorro lôco nas rua, moça." Quis saber quem era o tal "cachorro lôco" que poderia incomodar um grupo abandonado à própria sorte. Ele desviou o olhar, encarou o crucifixo. "Os mano."

Poeta

"Hermínio adora plantas. Nunca faltam samambaias esverdeando a sala de sua casa, e um de seus passeios prediletos é andar pelo Aterro do Flamengo na época em que os abricós-de-macaco estão florescendo. (...) É um ecologista – mas à sua maneira. E não faz nenhuma questão de ter a vida selvagem invadindo seu espaço. Em uma noite, enquanto via televisão, percebeu um vulto planando sob o teto da sala. Poderia ser uma simples mariposa. Mas e se fosse um morcego? Na dúvida, não deu outra: do jeito que estava vestido, calçou o sapato, passou a mão na carteira, trancou a porta e chispou para um hotel. Só voltou para casa no dia seguinte."

Esse é um dos meus trechos preferidos de Timoneiro - Perfil Biográfico de Hermínio Bello de Carvalho, livro escrito pelo jornalista (e Omblogsman deste blog) Alexandre Pavan, que será lançado hoje, em São Paulo, a partir das 19h, no bar Genial (r. Girassol, 374, na Vila Madalena). Rara oportunidade para conhecer de perto o compositor e poeta que, entre tantos feitos, descobriu Clementina de Jesus, lançou Paulinho da Viola, produziu o espetáculo Rosa de Ouro e está aí, inteiraço, trabalhando como nunca, aos 71 anos.

Série Manos - III

Quatro vira-latas faziam companhia ao grupo de sem-teto. Depois de percorrerem a cidade juntos, dividiam o mesmo cobertor velho sob a estrutura de concreto do viaduto. Já reparou como os andarilhos estão sempre assistidos por um cão de rua? Este rapaz foi o único a abrir mão do estilo mano. Me lançou um olhar de fome e medo, o olhar fugidio da exclusão.

Série Manos - II

Estavam todos vestidos quando cheguei, mas assim que comecei a clicar, pararam de jogar cartas. Pedi licença para entrar naquele espaço público tão privado. Uma garota dormia encolhida e se encolheu ainda mais. Um dos rapazes resolveu tirar a camisa, alegando um calor inexistente. Outros dois o imitaram e logo me vi frente a três adolescentes fazendo pose de gângster. Preparei a câmera. Um deles pediu um instante. Deu a volta no viaduto e voltou com um cigarro na boca. Apagado. Era uma bituca que ele tinha pego do chão. "Agora pode, moça."

Série Manos - I

Costumava sair às vezes para fotografar cenas paulistanas. Era um modo de entender a cidade que me acolheu e me abriu uma porta quando tantas outras se fecharam. Foi numa dessas andanças que encontrei um grupo de sem-teto. Eram uns dez e moravam debaixo de um viaduto, na zona cerealista do Brás. Panos pendiam da estrutura de concreto, delimitando espaços na terra de ninguém. Os cães se encolhiam, na submissão dos rejeitados. Os homens jogavam cartas e brigavam e dormiam e deliravam. Quando cheguei, viraram manos.

É para agradecer?

Cinqüenta minutos atrás, chegou para mim um e-mail de uma amiga agradecida. Abri o anexo, tinha isso: http://ing.photobucket.com/albums/v132/bloodtalon82/thankyou.swf. Eu pergunto: que tipo de criatura insana cria uma coisa dessas? E que tipo de amiga louca manda isso para uma pessoa como eu, assumidamente virginiana? E de madrugada, ainda! É claro que não vou dormir enquanto não checar se tem MESMO um milhão de thanks you. Estou no 25.031 e acho que eles não vão parar tão cedo. Haja fôlego! Alguém me impeça, pelamordedeus! 27.712, 27.713, 27.714...

PS: Meu amigo Alê disse que é melhor eu não clicar em “Is that enough thanks?”...

Novos horizontes

Eis que surge um ano novinho em folha. Tem cheiro de borracha nova, cara de caderno em branco e, por enquanto, gosto de cabo de guarda-chuva. Como meu estômago está em festa, espero que você se contente com essa janela aberta. Se vir um fígado tropeçando por aí, diga para ele voltar já para casa!

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Meu Perfil
Ilhas Virgens (Britânicas), Mulher, de 26 a 35 anos
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