Me, mim, comigo

A Casa do 314

“Ah, não, cortaram o mato!”

Pronto, era o fim de uma idéia que eu vinha acalentando há meses para escrever aqui. Uma pena, já tinha até convencido dois amigos a irem comigo durante a noite até a Casa. Terei que esperar uns 30 anos para tentar novamente realizar a Série A Casa. Droga.

Ela fica no número 314 de uma rua com nome de passarinho. É fácil reconhecê-la porque está entre duas mansões com labradores, guaritas e regadores automáticos. A Casa está numa fenda do tempo, algo entre 1900 e a Idade Média. Parece um castelo velho, com sua pequena clarabóia e a fachada de pedra manchada pela infiltração. Não há carro na garagem coberta de folhas secas. Não há placa de imobiliária. Uma luz na sala é a única prova de que, talvez, seres humanos morem lá. No bairro em que os muros têm cerca elétrica, uma cortina semi-cerrada e um pequeno portão de grade resguardam o lugar de olhares curiosos como o meu. E só. Ah, claro, e o mato: um matagal tão grande e descuidado que soterrou um triciclo, sufocou as flores e avança pela calçada. Escoteiros se perderiam naquele mato.

Meu passatempo predileto era tentar decifrar o enigma. Quem mora lá? Por que nunca se vê ninguém, quem sabe uma senhora gorda e diabética ou um casal de velhinhos esquecidos pelos netos? Como conseguem levar a vida enclausurados, sem falar com vizinhos ou receber ligações de telemarketing? E a pergunta crucial: por que raios não cuidam daquele jardim?

Foram tantas dúvidas que tramei uma Série Guindaste só para a Casa. Primeiro, eu escreveria um post com suposições. Uma ex-guerrilheira mora lá. Acha que os militares ainda estão no poder e podem encontrá-la a qualquer momento. Por segurança, não mantém contato com a família. O mato alto serve para encobrir sua plantação de maconha.

O segundo passo seria ir com até lá, durante a noite, e amarrar flores vermelhas de celofane na ponta das folhas de mato – antes que me chamem de desordeira, isso se chama intervenção urbana e não vandalismo. Ela acordaria e, enfim, teria um jardim florido. Talvez aparecesse na janela, surpresa. Talvez até fosse ao portão. Talvez também mudasse de idéia sobre cultivar plantas ilícitas e adotasse um vira-lata.

Agora, está tudo perdido. Ao cortar o mato, o encanto se quebrou e minha série foi pro saco. É duro admitir, mas não se pode mais acreditar em bruxas. É a morte das fábulas. Vai ver, amanhã a Casa aparece pintada de branco. Uma tristeza.

intervenção urbana do grupo Poro

O pedido

São 22h30 quando peço uma média e um pão na chapa. A balconista me olha. Está aflita, posso sentir pela maneira como ela esfrega as mãos. Devem estar frias de tanto lavar copos, pratos, talheres. Seus grandes olhos me fitam, como se quem fosse fazer um pedido fosse ela, algo como “não queira padarias abertas na segunda-feira de Carnaval”. Arruma a redinha do cabelo.

– Por favor, eu quero um café e um pão na chapa.

Não tem mais jeito, ela não pode fingir que não ouviu. Falei olhando nos olhos. Ela não se move, parece olhar através de mim. Devo ter ficado transparente. Ela faz um movimento nervoso com a sobrancelha e, enfim, eu os vejo. São dois homens com roupas chapiscadas de tinta; um deles traz uma trena. O cheiro massa de vidraceiro se mistura ao do café. Passam, pesados, pelo estreito corredor atrás de mim, ouço os passos arrastados, e somem por uma porta. A balconista vai até o chapeiro repassar meu pedido e, no caminho, desvia de uns fios esticados no chão.

Os dois homens voltam, agora, um deles tem um balde de tinta nas mãos. No chão, uma pegada branca marca o azulejo encerado. Um casal de clientes sai da fila do pão, a mulher está dizendo que é um absurdo, um absurdo, não podiam fechar a padaria? quando surge um homem com uma britadeira na mão. Puxa um fio de dentro da cozinha e se posiciona entre a balconista e o chapeiro. As pessoas apoiadas no balcão se olham trocando censuras silenciosas. E, então, o barulho começa. Mais três pessoas se levantam, praguejando. Uma garotinha começa a gritar. Os pais acodem, a mãe tampa os ouvidos num gesto teatral, saem também.

Na fila, acumulam-se impropérios. Penso que estou em pesadelo alheio, só pode ser, quando noto que no meio de toda aquela balbúrdia, a britadeira, meu pão que chega, a gritaria, onde já se viu fazer reforma com clientes dentro da padaria, o cheiro de café e rejunte fresco, não podiam ter fechado no Carnaval?, a menininha que chora, no meio de toda essa confusão, a balconista e o pedreiro baixam os olhos, juntos. Num gesto cansado, ela passa o pano no balcão e recolhe as migalhas na palma da mão.

Colecionadora

Sempre invejei colecionadores. Na infância, tive um amiguinho que tinha a clássica coleção de moedas, herdada do pai dele. Havia montes de coleções ao meu redor: papéis de carta, calendários, rótulos de refrigerante, latinhas de alumínio, canecas, orquídeas, bolsas. Na adolescência, tive até uma amiga que colecionava absorventes – para o bem-estar da humanidade, os usados não entravam na coleção dela.

O pior de não colecionar nada é que você nunca participa das rodinhas de trocas, não suspira na frente de uma vitrine de sapatos nem guarda moedas novas para trocar por moedas velhas. Ter uma coleção é encontrar um objetivo na vida, uma meta, algo que justifique a sua existência, tipo assim, a nível de pessoa humana, entende?

Ninguém pode dizer que eu não me esforcei. Comecei com selos, mas morri de tédio. Ganhava papéis de carta lindos, mas achava um desperdício deixá-los em branco e desenhava em todos, motivo pelo qual minhas coleguinhas nunca queriam trocar comigo. Latinhas nem tentei, ocupavam muito espaço. E depois de flagrar um dos meus gatos em cima da estante empurrando uma bailarina de gesso, assim, na maior cara-de-pau, desisti de tentar uma coleção de miniaturas.

Finalmente, encontrei o que colecionar e já posso me sentir, enfim, uma cidadã. Coleciono palavras. Não qualquer uma, claro, porque coleção tem que ser de coisas difíceis de encontrar. Na minha seleção só entram palavras esdrúxulas. Lambisgóia, pinimba, açodada, obnubilar, canjebrina, tungar, escarcéu. Além de não precisar desembolsar um centavo (novo ou velho) para adquirir novos itens, sempre encontro alguém disposto a acrescentar palavras à minha lista – e sem querer nada em troca. O problema é que, como qualquer coleção, não posso usar. Nunca vou poder xingar ninguém de energúmeno, nem reclamar que achincalharam o Brasil e o planeta virou uma tosqueira. Portanto, nada armar quiprocó.

O ABC do WWW

Faz uma semana que estou dando os últimos ajustes antes de vocês descobrirem qual será a surpresa do dia 22. Para isso, estou em imersão neste blog. Como qualquer análise profunda, essa também resultou numa verdade implacável: sou uma blogueira completamente ignorante!

Dói reconhecer isso. Eu achava que entender o que é WWW fosse meio caminho andado, mas isso é o ABC internético. Básico. Em poucos minutos, fui apresentada a coisas como HTML, URL, ID, CSS, IP... Pelamordedeus! Isso é algo fora da minha capacidade de armazenamento de siglas! E ainda tenho que tomar decisões importantes sobre coisas como browser, arquivo estático, display, template. Alguém aí sabe o que é um header? E um custom? Se me perguntarem, sou capaz de responder, “não, obrigada, já almocei”. E trackback? Gente, é exigir muito de uma mera jornalista, não? O pior é que não faço idéia de como vou sobreviver na internet sem saber o que são todas essas coisas.

Aperto um botão – ai, como sou estúpida, o certo é “clico num ícone” – e uma mensagem na tela me pergunta qual é meu “linkblog padrão”. Claro que não entendi, mas uma mensagem ao lado de uma caixinha em branco me explica melhor: “Será exibido próximo ao blog (se o seu skin suporta isso)”.

Para não virar uma ignorante bilíngüe (internetês-inglês), vou ao dicionário. Diz o meu velho International Dictionary of English: “skin s. Pele, cútis, tez; odre; película; película fina que se forma no leite fervido; túnica; casca; crosta; revestimento; pergaminho; (gír.) sovina; vigarista, trapaceiro”. Se você também não entendeu, bem-vindo ao clube. De uma coisa eu tenho certeza: se continuar desse jeito, meu skin não vai suportar mesmo!

O caderno de receitas

Se eu tiver uma filha, vou dar meu próprio caderno de receitas para ela. Talvez ela ache uma coisa antiquada, tipo enxoval com bico de crochê. Minha mãe fez um quase completo para mim, tinha toalha, lençol, tapete, tapetinho de banheiro, tapetinho de pôr do lado da cama, tapetinho de telefone. Gente, tinha até caminho-de-mesa. Tudo com bico de crochê.

Aí, eu namorei, terminei, namorei, separei, quase morri, fiquei solteira, galinhei, normalizei, namorei. Quando precisei de uma toalha de mesa, ela me disse, morrendo de vergonha, que meu enxoval estava “incompleto”. Foi a palavra bonita que ela achou para dizer que tinha pego minhas coisas aos poucos: um dia é uma visita, no outro, uma chuva fora de hora que encharca a roupa no varal, sabe como é, vai ficando no uso. Só sobrou uma toalha de rosto – com uma barra de crochê tão grande que dava para fazer outra toalha de rosto com ela.

Claro que eu tenho a toalha de rosto até hoje. Azul, meio desbotada e com uma manchinha de cândida que não sai. Mas é uma toalha de rosto. Todo mundo pega nela. Ela vai para a máquina junto com as toalhas de rosto que não são do enxoval. Isso contamina.

Se fosse um caderno de receitas, seria outra coisa. As páginas ficam com orelhas. Amarelam. Na receita de bolinho de chuva tem uma marca da xícara de café que acompanhou o quitute. Na lista de ingredientes do Bolo Formigueiro está uma científica colher “mais-ou-menos cheia”. A letra vai mudando de acordo com a fome. E os respingos de comida, convenhamos, são um charme. Um caderno de receitas é muito pessoal. Você não deixa as visitas mexerem nele. Você esconde a dica da colher “mais-ou-menos cheia”. Afinal, você levou anos para fazer um caderno de receitas, teve que ralar muita cebola, colar recortes de revista e rótulos de creme de leite e não vai dar assim tão fácil sua dica de arroz soltinho para a primeira filha adolescente que aparecer na frente. Ela que faça o caderno dela, se ela quiser! Essa juventude quer tudo mastigado, valhamedeus!

Prato de mãe

– Eu queria o livro de receitas da mamãe.

– O Dona Benta?

– É.

– Ah, é, saiu uma edição nova.

– Eu queria o da mamãe.

– O da mamãe? O velho?

– É.

– Mas se tem um novo... Já sei, é caro.

– Não faço idéia.

– Se não for carão eu compro para você.

– Eu quero o da mamãe.

– Mas, Cá, o da mamãe é velho! Tá usado, meio sujo. Coisas caíram nele.

– Eu quero o dela. Mesmo com as coisas.

– Tem farinha, tem página suja de manteiga... A essa altura, deve ter uma colônia inteira de fungos na receita de Morango Tricolor.

– Eu quero os fungos também.

– Credo, Cá, como você ficou nojenta! Eu não como mais na sua casa.

– Nem eu.

– ?

– Eu quero a comida da mamãe e não tem. Eu vou ao supermercado e compro um monte daquelas frutas e legumes lindos. Eles lustram as maçãs! Meu carrinho parece de comercial de margarina.

– Pérai, mas não eram frutas?

– Ai, caramba, que sejam! Enfim, compro muita mandioquinha. Mandioquinha é a cara da mamãe.

– Acho que é mais batata. Todo dia ela faz batata. Frita, cozida, com manteiga, assada...

– Não, mamãe é uma mandioquinha. Eu comprei um monte de mandioquinha para fazer purê. Fiz um arroz caprichadinho, piquei a cebola igual a mamãe.

– Invisível.

– Invisível. Refoguei carne para rechear o pimentão, lavei um pé de alface bem verdinho e coloquei tudo em vasilhinhas. Ficou lindo. Aí, eu deixei para o jantar, porque belisquei enquanto cozinhava e minha fome tinha ido pro saco. Uma amiga ligou e fomos comer fora. Ficou para o dia seguinte, mas eu almocei no trabalho e cheguei tão cansada em casa que fui dormir sem jantar. No outro dia, teve uma reunião...

– A comida estragou?

– Estragou. Eu abri a geladeira, olhei aquele alface murcho... Tanta gente passando fome, deu vergonha. Fiquei tão triste... Quase chorei, ali, olhando pro alface.

– Era orgânico?

– O que?

– O alface. Era hidropônico?

– Que diferença isso faz?

– Hidropônico dá mais dó. O cara sua para fazer um alface lindo, sem agrotóxicos, sem estragar a camada de ozônio nem derreter as calotas polares e o escambau.

– Acho que era.

– Xííí...

Trocou

Tenho de ir para o cavalheiro da direita, o que significa que vou ter como parceiro o pobre rapaz que sua em bicas. Gotículas de suor escorrem por todo o rosto e viram grandes rodelas encharcadas debaixo dos braços. E ainda estamos no começo da aula. Minha mão encosta no ombro dele e faz shack, shack. O coitado está se liquefazendo! Me concentro nos meus pés e agüento firme.

Trocou.

O próximo dançarino conta os passos mentalmente. Ou, pelo menos, pensa que é mentalmente, porque dá para ver os lábios dele se mexendo. Na primeira aula, achei que era um mantra. Depois, suspeitei que ele estivesse cantarolando a música, mas logo percebi que ele continuava sussurrando mesmo quando o som estava desligado. Perguntei o que ele estava fazendo e o rapaz riu. Meda.

Trocou.

Ah, os nazi-mórmons. Todos trocam de parceiros a cada música, menos o casalzinho-que-não-dança-com-ninguém. A professora diz “trocou” e eles olham com cara de paisagem. Ela nunca usa decotes ou saias curtas e ele deixa a camisa de mangas compridas fechada. Até o último botão. São loiros, muito brancos, de olhos claros e nunca conversam. Nem entre eles. Ainda não descobri o que vieram fazer numa escola de dança. Devem ser espiões.

Trocou.

O mundo não pára de me pregar peças e a última é que o melhor tangueiro da turma é um japonês alto, magro e com um cabelo negro e brilhante que vai até a cintura. Parece um Cavaleiro do Zodíaco. Ele traz numa mala seus sapatos especiais de dança, velhos e gastos. Devem ser realmente especiais, porque ele dança que é uma beleza. Me sinto argentina desde criancinha!

Trocou.

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Ilhas Virgens (Britânicas), Mulher, de 26 a 35 anos
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