Reportagens

A volta do Preto Velho

A estátua do Preto Velho tinha virado um estorvo no galpão do projeto Escola da Rua, na Vila Madalena, zona Sul de São Paulo. Encontrada por Esmeralda Ortiz, uma ex-menina de rua, a obra estava jogada perto de um ponto de ônibus, na região da Vila Olímpia, zona Oeste. Esmeralda viu, gostou e conseguiu convencer o motorista do coletivo a descer e sentar a estátua nos bancos traseiros. Era a última viagem daquela madrugada de novembro de 2002. A jovem entrou e pagou apenas a sua passagem, apesar de a estátua ocupar o lugar de duas pessoas – pesava uns 20 kg e era do tamanho de um adulto, feita em resina e fibra de vidro.

O Preto Velho da Esmeralda, como ficou conhecido na Escola da Rua, fora feito em uma estranha posição, com as costas curvadas, motivo pelo qual não parava sentado em nenhuma cadeira. Empoeirado e cheio de trincas, ficou meses esquecido em um canto. Quando o vi, na manhã de 8 de agosto, estava quase irreconhecível: havia sido colocado de pernas para cima; a mão direita tinha descolado do punho da camisa e, posta sobre as dobras da calça, dava ao conjunto um ar engraçado.

Esmeralda sofria. Fora pressionada a se desfazer do entulho ou leva-lo para casa. Quando ela me viu, falamos sobre seu projeto de fazer uma peça de teatro contando a história da música popular brasileira. Queria usar o Preto Velho na montagem, mas sabia que ele não poderia ficar mais na Escola da Rua. Me apontou o canto em que a estátua estava e perguntou:

– Você quer isso? Eu te dou, pode arrumar, dar uma pintada. Quando eu precisar para a peça você me empresta. Quer?

Olhei para a estátua desengonçada. Vestia um terno que, supunha, um dia fora branco. Desvirei a peça para olhar o rosto. Tinha um furo na bochecha esquerda e uma rachadura profunda na cabeça. Estava de olhos fechados, com uma expressão de êxtase. Sorria. Sorri também.

Eu conhecia aquela estátua. Fora uma das duas réplicas feita pelo mestre Elifas Andreato para o antológico bar Vou Vivendo, dos irmãos Altman. Na derradeira noite em que o bar terminou, as pessoas levaram de lembrança tudo o que era possível carregar, incluindo toalhas de mesa, copos e objetos de decoração. Nunca freqüentei o Vou Vivendo – morava no interior, na época –, mas posso imaginar um grupo de boêmios, com os olhos embargados, cantando “meu coração foi de bar em bar/ se perdeu nunca mais se achou/ foi vivendo assim/ sem ter ninguém pra dizer um boa noite” e carregando, nos braços, o Preto Velho da Esmeralda.

Ninguém imaginava que a estátua tivesse resistido, seis anos depois que o bar acabou. Nem eu. Até que a vi na Escola da Rua. O Preto Velho da Esmeralda é o Pixinguinha que, deitado em uma lua azulada, abençoava os amigos que freqüentavam o Vou Vivendo.

Como a estátua sobreviveu, tanto tempo depois, não se sabe. O que eu sei é que, nos últimos dias, eu e o artista plástico Sergio Fabris submetemos Pixinguinha a mais uma aventura. A estátua passou por uma série de “cirurgias” para renovar sua cor de ébano, restaurar seu terno de linho S120 e resgatar seu inseparável saxofone. Com a bênção dele.

Letras no asfalto

“Que absurdo fazer isso com um presidente”, dispara Francisco Augusto da Silva. Rádio ligado em uma emissora de notícias, ele ouve dizer que se Lula fosse submetido a uma avaliação escolar, não seria aprovado. “Ele é um homem culto, não fez faculdade, mas fez vários cursos pelo país”, defende.

A peruca preta de fios sintéticos dificulta estimar a idade de Silva. Talvez uns 55 anos, “30 deles na indústria automobilística”, me adianta. Volto para o Calvino que carrego comigo, releio o trecho de um conto em que o personagem Marcovaldo sonha em passar uma noite dormindo no banco de uma praça. “Marcovaldo tornou a olhar a lua, depois foi observar um semáforo que ficava um pouco mais adiante. Brilhava, amarelo, amarelo, amarelo, continuando a acender e reacender.”

Gosto de gente. Conversar com taxistas é minha especialidade, mas também dedico bons minutos para falar com ascensoristas, zeladores, motoboys, contínuos, porteiros, balconistas. Dei um curso em um colégio e, no último dia, os alunos vieram me perguntar se era meu namorado aquele homem que assistia às aulas no fundo da classe. Era o taxista com quem eu tinha fechado um pacote de corridas.

Do banco de passageiro já conversei com taxistas que foram professores, bancários, metalúrgicos, vendedores, corretores de seguro. Há muitos ex-torneiros mecânicos, como o presidente um dia foi. Há um tipo de sotaque caipira que me atende pelo rádio-táxi – foi peão, trabalhou com gado, levou um tombo de cavalo, “fiquei morto por três dias”, internado com fraturas múltiplas. “Aqui, ó”, ele pega a minha mão e a coloca em seu tornozelo, “tem um pino até hoje”. Com outro taxista, uma vez, paguei uma corrida com umas moedas e, surpresa, o vi joga-las no carpete debaixo dos pedais do carro. Olhei e outras tantas moedinhas reluziam, o troco de um dia inteiro de corridas. “Tem que pisar nelas para trazer mais dinheiro”, sentenciou.

O Marcovaldo de Ítalo Calvino trabalha oito horas como carregador, mas acha tempo para olhar pássaros, cogumelos num ponto de bonde, mofo nas bancas de jornal. Francisco Augusto da Silva, taxista, não tem horário fixo e seus olhos já se acostumaram a olhar do retrovisor para o semáforo, do semáforo para a calçada, em busca de um passageiro. Para ler, sempre acha tempo.

“Quando me aposentaram, estava no auge do meu conhecimento”, diz Silva, solene. Fez curso de tecnologia na Fatec, gosta de livros “mais do que muito jovem por aí”. Oshimi, Mao Tse Tung, Drácula, Che Guevara, Silva lê de tudo. Tem pressa, passa no sinal vermelho para me deixar em uma esquina. Pergunto qual seu autor preferido, mas ele está atento ao colega de profissão que manobra para estacionar. Silva o ultrapassa, estaciona. Eu pago a corrida e antes que ele bata a porta ouço um “Sidney Sheldon é muito bom” e me perco entre o cinza dos passantes nessa manhã fria.

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Meu Perfil
Ilhas Virgens (Britânicas), Mulher, de 26 a 35 anos
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